Mês de conscientização sobre a Doença de Alzheimer — o papel da fisioterapia

Setembro é o Mês Mundial do Alzheimer, uma campanha internacional dedicada à conscientização sobre a doença e outras formas de demência. No Brasil, o 21 de setembro também é reconhecido como Dia Nacional de Conscientização da Doença de Alzheimer.
Mais do que falar sobre a doença, esse período é uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre os cuidados que podem contribuir para a qualidade de vida, funcionalidade e dignidade da pessoa que vive com Alzheimer.
A Doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva que compromete gradualmente a memória, outras funções cognitivas e a capacidade de realizar atividades da vida diária. Com a progressão da doença, também podem ocorrer alterações motoras e funcionais, como redução da mobilidade, alterações da marcha, perda de força, dificuldades de equilíbrio e maior risco de quedas.
É nesse contexto que a fisioterapia desempenha um papel importante dentro da equipe multiprofissional.
🧠 Alzheimer não afeta apenas a memória
É comum associarmos o Alzheimer principalmente ao esquecimento. Entretanto, à medida que a doença evolui, a pessoa pode apresentar dificuldades para realizar tarefas que antes eram simples, como levantar-se de uma cadeira, caminhar, mudar de posição, subir degraus ou manter o equilíbrio.
A redução da atividade física pode contribuir para um ciclo de sedentarismo, perda de força muscular, redução da mobilidade e maior dependência funcional.
Por isso, manter a pessoa fisicamente ativa, dentro de suas possibilidades e respeitando suas condições clínicas, é uma parte importante do cuidado.
🚶♀️ Como a fisioterapia pode ajudar?
A fisioterapia deve ser individualizada de acordo com o estágio da doença, capacidade funcional, condições clínicas, ambiente, preferências e objetivos da pessoa e de sua família.
Entre os principais objetivos estão:
💪 Manutenção da força muscular
Exercícios de fortalecimento podem ajudar a preservar a capacidade de realizar movimentos funcionais, como levantar-se, sentar-se, caminhar e realizar transferências.
A perda de força pode aumentar a dependência e dificultar atividades básicas do cotidiano. Por isso, estimular a musculatura de maneira segura e progressiva é importante durante o acompanhamento fisioterapêutico.
⚖️ Equilíbrio e prevenção de quedas
Alterações de equilíbrio e mobilidade podem aumentar o risco de quedas em pessoas com demência.
A fisioterapia pode trabalhar estratégias de equilíbrio estático e dinâmico, mudanças de posição, transferências, marcha e respostas posturais, além de orientar familiares e cuidadores sobre medidas de segurança no ambiente.
Evidências recentes continuam apontando benefícios dos exercícios envolvendo força, mobilidade funcional e equilíbrio para melhorar a mobilidade e o equilíbrio de pessoas idosas com Alzheimer.
🚶 Marcha e mobilidade
Caminhar não significa apenas deslocar-se.
A marcha está diretamente relacionada à autonomia e participação social.
Por isso, quando possível, o tratamento pode incluir treino de marcha, mudanças de direção, obstáculos, diferentes superfícies, transferências e atividades funcionais relacionadas à rotina da pessoa.
🪑 Treino das atividades funcionais
A fisioterapia não precisa estar restrita a exercícios realizados de forma isolada.
Movimentos do cotidiano podem fazer parte do tratamento:
levantar e sentar;
caminhar até determinado local;
realizar transferências;
subir e descer pequenos degraus;
alcançar objetos;
mudar de posição;
realizar movimentos necessários para atividades diárias.
Quanto mais o exercício estiver relacionado à realidade da pessoa, maior pode ser sua relevância funcional.
🏠 E quando a fisioterapia é realizada em casa?
Para algumas pessoas com Alzheimer, principalmente aquelas com maior dependência funcional ou dificuldade de deslocamento, o atendimento fisioterapêutico domiciliar pode ser uma estratégia importante.
O ambiente da própria casa permite ao fisioterapeuta observar aspectos que interferem diretamente na funcionalidade e segurança, como:
disposição dos móveis;
iluminação;
tapetes e obstáculos;
altura de cama e cadeiras;
acesso ao banheiro;
necessidade de apoio para caminhar;
rotina do paciente e do cuidador.
Dessa forma, além de trabalhar o movimento, a fisioterapia pode contribuir para adaptar estratégias à realidade daquela pessoa.
❤️ A pessoa vem antes do diagnóstico
Um dos aspectos mais importantes no cuidado da pessoa com Alzheimer é compreender que a doença não define quem ela é.
Mesmo diante das limitações cognitivas, muitas capacidades podem permanecer preservadas durante determinados períodos da evolução da doença.
Por isso, o tratamento deve considerar não apenas aquilo que a pessoa perdeu, mas principalmente aquilo que ainda consegue fazer.
O exercício pode ser adaptado às capacidades cognitivas e motoras existentes, utilizando comandos simples, demonstrações, repetição, estímulos familiares e atividades significativas.
A proposta não é exigir que a pessoa execute movimentos perfeitos, mas criar oportunidades para que ela continue participando ativamente de sua própria rotina.
🌿 Movimento também é cuidado
A evidência científica apoia o uso do exercício como parte do cuidado não farmacológico das pessoas que vivem com demência. Entretanto, é importante evitar a ideia de que a fisioterapia irá interromper a progressão do Alzheimer.
A fisioterapia não cura a Doença de Alzheimer.
Seu objetivo é contribuir para preservar, pelo maior tempo possível, aspectos como:
força muscular → mobilidade → equilíbrio → marcha → funcionalidade → independência → participação.
Além disso, manter-se fisicamente ativo faz parte de uma abordagem mais ampla de promoção da saúde ao longo do envelhecimento. A OMS recomenda que pessoas idosas sejam fisicamente ativas dentro de suas capacidades e condições de saúde, incluindo exercícios voltados ao equilíbrio para aqueles com mobilidade reduzida.
💜 Cuidar é preservar possibilidades
Cuidar de uma pessoa com Alzheimer é olhar para além do diagnóstico.
É perceber que, por trás das limitações cognitivas, existe uma pessoa com história, preferências, afetos, capacidades e necessidades próprias.
E, muitas vezes, pequenas conquistas têm um grande significado:
um passo a mais, levantar-se com menos ajuda, caminhar até a sala, conseguir sentar-se com segurança ou simplesmente participar de uma atividade junto à família.
A fisioterapia busca justamente isso: preservar capacidades, estimular o movimento, promover segurança e favorecer a autonomia possível em cada fase da doença.
Porque cuidar também é oferecer oportunidades para que a pessoa continue se movimentando, participando e vivendo com dignidade.
Referências
World Health Organization (WHO). Non-pharmacological interventions for people living with dementia. Recomenda exercício físico para pessoas que vivem com demência, com recomendação forte e alta certeza da evidência.
Lam FMH, et al. Physical exercise improves strength, balance, mobility, and endurance in people with cognitive impairment and dementia: a systematic review. Journal of Physiotherapy. 2018;64(1):4–15.
Adderley J, Ciccarelli S, Ferraro FV. Do exercise interventions improve functional mobility and balance in Alzheimer's patients? A systematic review. Journal of Sports Medicine and Physical Fitness. 2025;65(9):1235–1244.
Faieta JM, et al. Exercise Interventions for Older Adults with Alzheimer's Disease: A Systematic Review and Meta-Analysis. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. 2026.
World Health Organization. WHO Guidelines on Physical Activity and Sedentary Behaviour. Geneva: WHO; 2020.
Ministério da Saúde. Alzheimer — informações sobre a Doença de Alzheimer e suas manifestações clínicas.



